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A ilusão do Salmão …

Onde anda o mar, pergunto eu, ao Sem-Rosto…

Perguntei a um triste búzio Quasímodo,
O que dizia bem de dentro da maré ferida,
Respondeu bramindo e a custo, que dentro,
Havia tanto asco de tainha verde, era o búzio

Quem não se ouvia do mar, nem ao plágio fanho,
Ao tom do jazz, ronco de esquadrilha mortal,
Onda do mar a bater no bojo, morteiro
Estoirando o ar, alga podre, peixe-gato, nojo,

E dum oco, ocre, búzio torto, nem ralho… 
Onde anda o mar pergunto, debruçado,
Moribundo doente e coxo, ao rouco mar de junco,
Aí onde a costa engorda o atum infecto…

Respiramos ar gordo a contragosto,
Um monstro, tanto Ogre quanto Elfo-de-caça, 
Me treme na voz, quem sou, que importa à corça,
O pavilhão na caça, sem a salvação da grossa, 

A poça à soleira da porta é rasa, nossa rude tábua 
Ardeu, pegando fogo ao mastro e à casta aurora,
Aonde andas justo agora, ao mar eu pergunto,
-Para onde caminho, O Sem-Rosto és tu, Salino,

Pergunto eu indigno e mudo, pro céu do
Sol-posto com o mindinho abreviado e meio, 
-No meu peito reinou um salmão e de desgosto
Morri eu, seu irmão, – O Do-Coração-Ateu -…

Joel Matos 04/2019
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Como terra me quero, descalço e baixo …

Como explicar na poesia que faço,
O tempo que faz agora e da morte,
Se a arte de o fazer não é minha,
E lá fora manda o tempo que faz, 

Se o que faço eu é chorar rios de
Chuva quente, menor que arte é fazer
Do tempo, enfim que ri, chora, venta
E ameaça chuva, treme de frio, molha,

Bastando querer eu, estando descalço 
Como a terra me quer nela, morto frio,
E nela me incluir, unir-me ao carvalho
E ao cheiro do estio molhado, amo 

Como ao tempo que faz do Norte chover
chuva forte, Como terra me quero, baixo
E estranho funcho, chã gramínea me faço,
Perfeita alucinação do espaço próximo, cujo

Como terra me quer, ritual e descalço,
Maior que a arte é fazer do tempo uma
Expressão excessiva, sensual quanto
A vida, invocando as horas que morro,

Explicando ao inevitável, o perdido,
Acho eu !…

Joel Matos 04/2019
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– Papoila é nome de guerra –

– Papoila é nome de guerra –

Seja como for sempre volta sendo,
Não haverá antinomia,
Sem a aparição dos medos,
Quanto às flores da Terra,
As pétalas senão rubros dedos, 

Indultos os próprios 
Caules presos sentindo calor,
Tuas mãos opostas das ervas,
Seja qual for a razão,
De ser desse amor certo.

No meio dos desertos,
Ruas serão campas abertas,
Testas de ferro néscios,
Todavia não me abstenho,
Enquanto há flores no árido,

Eu escrevo a vermelho insulto
E ao vivo – Papoila, meu nome de guerra –
Rosa brava, Tomilho, salva, versículos islâmicos, 
A maré vai e volta sempre, só meu coração rompeu, 
Vai e não volta sendo, não faz falta

– Papoila é nome de Terra,
Humildade é ocupação de santo, humilhação,
E eu não sou frade de verdade, 
Sejam Eles quem forem, é da emoção que falo
Quando me exprimo p’los beiços e p’los gestos…

Joel Matos 04/2019
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O erro de Descartes

O erro de Descartes






O erro da ciência é considerar
Como um fungo, o pé de atleta. Descartes
E a guerra, uma deficiência genética incomum,
Já na filosofia se manifesta quanto falso é a guerra,

Querer alterá-lo, é ir contra a natureza humana,
O direito inalienável à exterminação completa,
A essência do universo é a solidão, 
Logo, exílio sugere alheamento e perfeição,

A solidão de quem não ocupa lugar em praça,
Nem coisa, nem lembrança,
Nem ilusória pertença celta,
Nem sensação. Quantos cacos separados,

Sinto em tudo o que sinto,
Um perpétuo exílio de vidro partido
Como quem abdica de uma nação,
De um reino de um coração que trago,

Íntegro como um céu de sol,
Feito cadinho e vidro quebradiço,
Desolação, delito, amor vão,
Existo fora, porque não quero deixar vestígio, 

Nem tão pouco alterar o gosto do ambiente
Do qual faço parte, a química do lodo e do mosto,
Não tenho esse direito, nem nada que me faça 
Desassemelhar do semelhante a mim e aposto.






Jorge Santos 04/2019
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O cérebro, não foi apenas criado por cima do corpo, mas também a partir dele, junto com ele, o coração …

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Certidão de procedência

Certidão de procedência

Qualquer coisa em mim se parece agora mais comigo,
Pálpebras de besta, coração de gente,
Sensação de vácuo omnipresente, amargo
De boca agreste, ombros do tamanho dum touro,

Qualquer coisa em mim pressente que morro, 
Que tudo seja fantasia, asseguro que não mudo,
Não mudo as pálpebras para o peito,
Não me iludo com o que antevejo,

Desligo o passo, do real faço absurdo,
Bocejo quanto a boca pode, como forasteiro, 
Procedo a uma aceitação das coisas leves, 
Indiferente aos valores, nada há que explicar

A um defunto que seja lúcido quanto o ferro
E saiba a sangue ou o prazer que existe 
Na dor caseira, hoje é a lembrança que penetro,
Que magoa, plantei os olhos numa maçã 

Gamboa, elogio a loucura, gabo-me ao metro
De não ser do que padeço mas da cura,
Vivo com impressão que não me pertenço
Pálpebras de besta, coração de mula,

Em negrito, “New Roman” que mais se pareça
Comigo, salário mísero e sem remédio,
A gula é privilégio da embriaguez de eunucos
E eu procedo do lado duro, sobretudo domino-me

Pela preguiça …

Jorge Santos 04/2019
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Cego debruçado em via-estreita

Há palavras de vulgar despojo,
Pois porque o normal é dar, logo
Eu me dou, de mim próprio, tal
Como choro ou respiro e me redimo, 

Mortal despojo, nome de guerra, nojo,
Guerreiro de latão, charlatão, só de incerteza
Tenho pose chaves e certidão; desejo é
Bom-porto, Porto-bom tem Zenão,

O silêncio é absurdo e o meu espírito
Paira longe ao longo, pois já não é só o pensar
Que me foge, eu que fujo de me pensar
Morto e mudo, cego debruçado em via-estreita,

Consciente da derrota, fama é lama e o facto
De ser dissemelhante a algum outro
Espécime de peixe-monge, faringe desfeita
E traqueia, difíceis de engolir, de pesar,

Há palavras de vulgar despojo, nojo
Porém me dá a fala sem emoção, “fio-prumo”, 
Por isso choro, quando respiro
De fora para dentro…e me dou,

Cego debruçado em via-estreita e oblonga,
Vivo metaforicamente falando pra fora 
E me queixo não por intenção mas por despeito,
Cedo por entre a prega do beiço, essa sim,

Autêntica, sábia, cega e verdadeira.

Jorge Santos 01/2019
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Ou eu me não chame de Antônio …

 

 

Ou eu me não chame de Antônio,
Nem de António Manuel.

Sou o antónimo dos argumentos
E ideias, dita meu próprio coração,
Qual é a paisagem certa e a época
Do ano em que se cultiva o crisântemo,

Ou eu me não chame nem Antônio,
Nem António…Mendes ainda menos,
José Desânimo é o meu incurável nome, 
Pois é, minto como todos os doentes,

Embora tenha consciência disso,
É fundamental pra me manter são, 
Ou eu não me chame António, atento
Ao que resta de humano em mim,

Tão só, séptico diante da censura,
Quando falo por imagens, sou capaz
De falar livremente e sinto pelos 
Intestinos, com toda a sabedoria,

Ou não me chamasse eu, António
Manuel Eliseu …

Jorge Santos 12/2018
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