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Morto vivo eu já sou …

 

 

Morto vivo eu já sou …

Se só e rigorosamente de objectos 
Mortos se compõem museus,
Morto vivo eu já sou, não estranho,
Fui partido, deixados mil e cem bocados
No labirinto em que me fingi preso,

Duvido que o vento teso
Ou o sol do meio-dia, me encontrem vivo,
Pois sinceramente me sinto morto,
Pra vida que nunca quis ter… …
Eis quanto comum de facto sou,

Ao ponto de ter vulgar umbigo;
Peculiar adereço em mim, o estar
Sem estar, a dor sem hiato ou subtítulo,
Desprezo de inglorioso palhaço de circo,
Desses sem palco nem apreço,

Velhaco tecido a palha, pseudónimo-erudito
E canalha com firma-reconhecida, mal pago
Taberneiro, manhoso com ácaros nos 
Testículos e na mal-formada verga
O sujo, besuntado a tinto e canja de

Galinha gorda, na barriga tatuo “marujo”, 
Sem jamais ter raspado nos flancos
Um batelão, nem de joelhos o convés,
Contramestre da ignomínia, da infâmia,
O coração, se pudesse, fugiria de mim,

Tão vulgar sou, sete sobre sete dias
Suo que nem camelo perante o Alfage
Mauritano, cerebelo de Sapo e Urubu,
Pinta de fuinha, saio ao meu avô Garim,
Morto externamente vivo …

Joel Matos 04/2019
Http://joel-matos.blogspot.com

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Tesoureiros da luz,

Tesoureiros da luz,

Tenho alma de cão pastor cego,
Sinto nas galáxias o que não vejo
Cá baixo, caminho na certeza de 
Voltar nunca o mesmo que fui,

Faz tempo, o futuro foi lá trás,
Sigo meus pés descalços, a alma
As estrelas e o espaço, tanto faz,
Formiga d’asa, onde possa voar,

Embarcar para as estrelas que sigo,
Pastor perseguindo velas, cego,
Queimando os dedos noutros 
Universos loucos, menos paralelos,

Assim como um tesoureiro da luz,
Caminhando no breu pelos pontos
Que brilham, sinto pelo som os astros,
Pouso nos cotovelos os ombros,

Nas estepes o desafio, a orgia da luz
Aí percebo quanto sou frágil, caniço
Da luz que sai pela voz e apenas,
Se é chama, é orgânica na lucidez,

Ela nos diz se a podemos desfiar
Ou não fiar, dependendo do ouro,
Da densidade frágil do fio, da voz o ar
E do modo como sai da boca, o cosmos

Da confiança e no tear próximo,
O pouso e os cabelos de Berenice…
Da janela os reconheço, cada transeunte
Pelo brilho que apresenta e usa,

Como que se germinassem espelhos
Na calçada, reflectidos na minha
Face a pontos ouro de luz, fina Ursa Menor
Ou grossa, difusa ou orgia em chama,

Tenha ou não eu alma de pastor cego
Certo é ter de rinoceronte ego, escaravelho
Sinto nas galáxias o que não vejo, pego
O facho e caminho para um Sol poente vizinho,

O meu travesseiro de luz.

Jorge Santos 04/2019
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A ilusão do Salmão …

Onde anda o mar, pergunto eu, ao Sem-Rosto…

Perguntei a um triste búzio Quasímodo,
O que dizia bem de dentro da maré ferida,
Respondeu bramindo e a custo, que dentro,
Havia tanto asco de tainha verde, era o búzio

Quem não se ouvia do mar, nem ao plágio fanho,
Ao tom do jazz, ronco de esquadrilha mortal,
Onda do mar a bater no bojo, morteiro
Estoirando o ar, alga podre, peixe-gato, nojo,

E dum oco, ocre, búzio torto, nem ralho… 
Onde anda o mar pergunto, debruçado,
Moribundo doente e coxo, ao rouco mar de junco,
Aí onde a costa engorda o atum infecto…

Respiramos ar gordo a contragosto,
Um monstro, tanto Ogre quanto Elfo-de-caça, 
Me treme na voz, quem sou, que importa à corça,
O pavilhão na caça, sem a salvação da grossa, 

A poça à soleira da porta é rasa, nossa rude tábua 
Ardeu, pegando fogo ao mastro e à casta aurora,
Aonde andas justo agora, ao mar eu pergunto,
-Para onde caminho, O Sem-Rosto és tu, Salino,

Pergunto eu indigno e mudo, pro céu do
Sol-posto com o mindinho abreviado e meio, 
-No meu peito reinou um salmão e de desgosto
Morri eu, seu irmão, – O Do-Coração-Ateu -…

Joel Matos 04/2019
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Como terra me quero, descalço e baixo …

Como explicar na poesia que faço,
O tempo que faz agora e da morte,
Se a arte de o fazer não é minha,
E lá fora manda o tempo que faz, 

Se o que faço eu é chorar rios de
Chuva quente, menor que arte é fazer
Do tempo, enfim que ri, chora, venta
E ameaça chuva, treme de frio, molha,

Bastando querer eu, estando descalço 
Como a terra me quer nela, morto frio,
E nela me incluir, unir-me ao carvalho
E ao cheiro do estio molhado, amo 

Como ao tempo que faz do Norte chover
chuva forte, Como terra me quero, baixo
E estranho funcho, chã gramínea me faço,
Perfeita alucinação do espaço próximo, cujo

Como terra me quer, ritual e descalço,
Maior que a arte é fazer do tempo uma
Expressão excessiva, sensual quanto
A vida, invocando as horas que morro,

Explicando ao inevitável, o perdido,
Acho eu !…

Joel Matos 04/2019
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– Papoila é nome de guerra –

– Papoila é nome de guerra –

Seja como for sempre volta sendo,
Não haverá antinomia,
Sem a aparição dos medos,
Quanto às flores da Terra,
As pétalas senão rubros dedos, 

Indultos os próprios 
Caules presos sentindo calor,
Tuas mãos opostas das ervas,
Seja qual for a razão,
De ser desse amor certo.

No meio dos desertos,
Ruas serão campas abertas,
Testas de ferro néscios,
Todavia não me abstenho,
Enquanto há flores no árido,

Eu escrevo a vermelho insulto
E ao vivo – Papoila, meu nome de guerra –
Rosa brava, Tomilho, salva, versículos islâmicos, 
A maré vai e volta sempre, só meu coração rompeu, 
Vai e não volta sendo, não faz falta

– Papoila é nome de Terra,
Humildade é ocupação de santo, humilhação,
E eu não sou frade de verdade, 
Sejam Eles quem forem, é da emoção que falo
Quando me exprimo p’los beiços e p’los gestos…

Joel Matos 04/2019
Http://joel-matos.blogspot.com

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O erro de Descartes

O erro de Descartes






O erro da ciência é considerar
Como um fungo, o pé de atleta. Descartes
E a guerra, uma deficiência genética incomum,
Já na filosofia se manifesta quanto falso é a guerra,

Querer alterá-lo, é ir contra a natureza humana,
O direito inalienável à exterminação completa,
A essência do universo é a solidão, 
Logo, exílio sugere alheamento e perfeição,

A solidão de quem não ocupa lugar em praça,
Nem coisa, nem lembrança,
Nem ilusória pertença celta,
Nem sensação. Quantos cacos separados,

Sinto em tudo o que sinto,
Um perpétuo exílio de vidro partido
Como quem abdica de uma nação,
De um reino de um coração que trago,

Íntegro como um céu de sol,
Feito cadinho e vidro quebradiço,
Desolação, delito, amor vão,
Existo fora, porque não quero deixar vestígio, 

Nem tão pouco alterar o gosto do ambiente
Do qual faço parte, a química do lodo e do mosto,
Não tenho esse direito, nem nada que me faça 
Desassemelhar do semelhante a mim e aposto.






Jorge Santos 04/2019
http://namastibetpoems.blogspot.com






O cérebro, não foi apenas criado por cima do corpo, mas também a partir dele, junto com ele, o coração …

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Certidão de procedência

Certidão de procedência

Qualquer coisa em mim se parece agora mais comigo,
Pálpebras de besta, coração de gente,
Sensação de vácuo omnipresente, amargo
De boca agreste, ombros do tamanho dum touro,

Qualquer coisa em mim pressente que morro, 
Que tudo seja fantasia, asseguro que não mudo,
Não mudo as pálpebras para o peito,
Não me iludo com o que antevejo,

Desligo o passo, do real faço absurdo,
Bocejo quanto a boca pode, como forasteiro, 
Procedo a uma aceitação das coisas leves, 
Indiferente aos valores, nada há que explicar

A um defunto que seja lúcido quanto o ferro
E saiba a sangue ou o prazer que existe 
Na dor caseira, hoje é a lembrança que penetro,
Que magoa, plantei os olhos numa maçã 

Gamboa, elogio a loucura, gabo-me ao metro
De não ser do que padeço mas da cura,
Vivo com impressão que não me pertenço
Pálpebras de besta, coração de mula,

Em negrito, “New Roman” que mais se pareça
Comigo, salário mísero e sem remédio,
A gula é privilégio da embriaguez de eunucos
E eu procedo do lado duro, sobretudo domino-me

Pela preguiça …

Jorge Santos 04/2019
http://namastibetpoems.blogspot.com