(Meu reino é um prado morto)

A minha mão não cobre o mundo todo,
Mas a sombra assusta os passageiros
Viajantes que no meu albergue entram,
Venho de candeio na mão… bruxuleando,

Apetece-me também eu partir quando chove
Mas dita o destino,-de que não sou dono-
Criar bem dentro uma espécie de abismo
Tutelado por uma outra dimensão de mim próprio,

Sonho de que sou eu mesmo a quem
Obedece a trovoada e o mar oceano
Revolto, acordo com a serenidade de um seixo
Que tem qualquer outra pessoa sem ter rosto,

Igual a eles em tudo e até a morte receio,
Sobretudo eu, de que serve ser do sonho
Autoridade ou rei príncipe se não mando 
Sequer nos vencidos, tanto quanto eu sou

Quando acordo, terreno e ilucido, viajando
De noite sou rei dos bruxos, acordado sou
Insignificante baixo, seixo cego, sargo morto
Assim como tu, que não és nada nem ninguém 

E nem eu encubro e luz dum todo, esta ou outra,
A ciência ou a metafísica, Venho de candeia na mão
Como se os meus pensamentos fossem
Realmente vitais p’ras dimensões que tem a Terra

No universo, às vezes deixo-me possuír
P’lo logro, outro modo de ser quem sou 
E sonho que posso içar palavras em tribuna 
Alta, adaptada a mim mesmo e acender a vela,

Como se tivesse atravessado eu um braseiro 
Agnóstico e místico, sem rosto pra que me esqueçam,
Apenas sussurro e arvoredo, venho de candeio na mão,
Cedo é e a paisagem o desenho geométrico mais antigo

Do mundo, eu pra o abrir, cego descubro que
(meu reino é um prado morto)

Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com

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Em lugar primeiro …

(Em lugar primeiro,)

Não quero nada inteiro,
Como uma criança o giz
Ou um brinquedo dado, 
Uma completa dor de cabeça,

O sol ou o céu abertos de par-em-par,
A morte certa ou o pão mole por partir,
O encanto do azul-marinho esbatido na praia,
A miragem do deserto em faixas ocre e amarelo,

Inteiro é o doer
Que ninguém deseja,
É o sofrer que convive contigo,
O brinquedo da loja, que queria ter, 

O céu e o sol porque são meus
Que os conheço,
Sobre a cabeça ponteiros 
Como pensamentos, lanças d’África,

Não quero por espontânea geração 
O que sinto e lá não está,
Nem o que trago em trapos rasgados,
Mal cosidos ao peito,

Não quero inteiro nada, nem a vida
Dividida, não quero lugar terceiro,
Não quero nada por inteiro,
Quero todo o erro que eu possa ser, 

Em lugar primeiro …

Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com

Travisto-me de aplauso

Travisto-me de aplauso,
Prego aplausos, emprego
Aplausos em artes visuais,
Construo palácios com eles,

Excepto às Segundas-Feiras de cinzas,
Quando preciso alimentar
A sensibilidade em silêncio 
E fazer o que deveras quero,

Ouvir o vento, basta isso, 
Pra que me complete e
Contente … ah, de palmas
Também e dessa tal gente

Despida de gestos que os
Meus são comuns lugares,
A razão porque tanto desconheço
É ver tão perto quando me penso

Barro, argila ou ferro fundido,
Travisto-me de tudo quanto do
Mundo me separa o corpo real,
Travestir-me de público ou “nu-rei”,

É raro, excepto nas Sextas-Feiras Santas,
Quando a alma é mais negra e cega
Que carvão em pedra,
O que deveras quero é silencio …

Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com

Gosto do silêncios dos Mormon’s …

Se dou as palavras é porque
São feitas dos silêncios meus
Em compósito, nada assaz
Importante, decomposto … 

Gosto dos silêncios fétidos
Mais do que falas caladas
A meio, as palavras têm 
Um rosto, o silêncio varia, 

É Composto de intenções, 
Multidões de ínfimos insectos
Zumbindo, decompondo
Cintilantes a minha visceral

Saliva noutra forma
D’arte e em puro sonho,
Nada sério, sobretudo a
Poesia rítmica dos Mormon’s, 

Porque do céu chove assim,
Quem dera houvesse chuva dentro
Em mim, chuva sem fim nem
Princípio…

Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com

Sublime, suprema arte …

Sublime, suprema arte …

A vida é uma curta aberta
Entre tempestades, é a bonança,
No entanto cabem nela,
Todos os comuns sonhos,

E outros menos normais
De ermitas e simples gente,
Pra quem a vida é arte
Sublime, suprema, não tão

Pequena quanto a nossa,
Se é que ela existe como
Conta-corrente eu nado-morto,
Miragem no deserto,

A vida é uma curta aberta,
E eu acabo por ignorar, 
As estrelas que do céu 
Me vêm pouco e sem tempo

Entre as tempestade, a bonança
Entre morte e renascimento,
Quem me dera ser monge
Ou camponês, pra ter estrelas

A apontar do céu pra mim,
Mesmo na noite mais escura
Que o breu e fazer da morte,
Instante menor que vida ultra,

Sublime, suprema arte,
A vida é uma vala-comum aberta,
Por onde passam destinos
Soberbos e sobejos humanos,

Despojos desiguais, uns mais
Intensos mais nobres que de Roma,
Os centuriões guerreiros das guerras
Púnicas, outros que a gente perde

Pra morte…

Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com

A dor é púrpura …

(A dor é púrpura, não …)

A dor é púrpura, e
O que me doi é
A imensidão, sei 
“De cór” a tristeza,

Não vejo o fim à 
Dor nem à culpa,
Não creias em mim,
A dor nem púrpura é

Nem eu o tal “poeta”
Que possas chorar,
Se nem conheço
O original a preto 

E branco ou vermelho
Sangue e o orvalho
Apenas seca
Quando as folhas 

Debotam o chão
De amarelo seco
E isso apenas eu 
Sei, me dói sê-lo, sabê-lo

Me doi imenso,
A floresta púrpura,
O silencio e o eco
Não sei, nem donde vem,

Mas meu não é,
Nem é o teu, 
Mas do medo
Que sempre terei,

De ouvir soprar na porta,
A oscilação do ar
No outono, a dor é pura,
Oscila entre o céu e a dura terra,

Púrpuro será meu coração,
Não sei bem, de nada serve
Saber, não o sinto bater…
-A dor é púrpura, minto …

Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com

Lembra-me dois Unicórnios …

Lembra-te dos Unicórnios …

Lembras-te dos momentos 
Divinos e dos outros tão sós,
Dividíamos o tempo plo que 
Somos-criaturas povoadas

Por sonhos, lembras-te da
Entrega e da declaração
Lembras-te que morríamos
D’amor junto ao portão

Lembras-te da sensação 
De intimidade consentida 
Da sedução em que cada 
qual era mariposa e vela

Lembras-te da desmedida
Sensibilidade que da pele 
Vinha e era bem-vinda,
Quase com a doçura a mel,

O prazer do toque na curva
Do braço, falávamos do que
Não doía e duma alma a dois 
Presa a fio de guita e do que 

Somos – criaturas povoadas por
Sonhos reais, lembram-me 
Unicórnios do mar…

Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com